iG Comida- Dicas de pratos, refeições, receitas e onde comer bem

Colunistas

enhanced by Google
 

Quitutes e quitandas

Ingredientes, receitas e curiosidades

Guta Chaves é jornalista, escritora e professora. É co-autora da Larousse da Cozinha Brasileira e Gastronomia no Brasil e no Mundo, da editora SENAC

Cora Coralina, a poetisa e a doceira

Para ela, a culinária é a mais nobre de todas as artes, ligada à vida. Sorte nossa que podemos saborear seus doces poemas

26/08/2010 09:17

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-

Foto: Guilherme Lara Campos/Fotoarena

A capa do livro que reúne poemas "de comer" da poeta e doceira Cora Coralina

Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.

(trecho do poema: Cora Coralina, Quem É Você?)

Por ser um verdadeiro símbolo do seu Estado, certa vez o escritor Oswaldino Marques chegou a sugerir ao planalto, em Brasília, que desse à Cora Coralina o epíteto de Cora dos Goiases. Mas esse seria apenas o reconhecimento formal do que já é um fato para a primeira mulher a ganhar o Prêmio Juca Pato, em 1983, com o livro Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha. É impossível dissociar o Estado de Goiás dessa que é uma das maiores poetisas do país. O que dizer então da velha cidade de Goiás, em que ela nasceu e cuja casa virou um museu.

É por causa de Cora Coralina, e de outras doceiras da cidade, que Goiás Velho é um cantinho com alma feminina. Uma pequena cidade de ruazinhas de pedras, belos casarões de estilo colonial, entre eles, o da escritora, e mulheres guerreiras, que ganham a vida com suas receitas açucaradas. “Prato de bons-bocados e de mães-bentas. De fios de ovos. De receita dobrada de grandes pudins, recendendo a cravo, nadando em calda...”, é um dos versos de Cora Coralina que retratam, no poema O Prato Azul-Pombinho, a veia doceira da sua cidade.

É, sem dúvida, a minha autora predileta. Um pouco por causa dos sentimentos que essa dama das letras transmite em sua obra. Eles espelham a rigidez, a vida regrada e a determinação, tudo com uma doçura e inocência que vão de encontro à minha origem mineira. Cultura, que, aliás, também se assemelha à goiana em algumas receitas salgadas, mas mais precisamente nas doces. Outro motivo de minha predileção é que os versos da artista maior que é Cora Coralina são muito comoventes.

Cora Coralina gostava de dizer que era “mais doceira que poeta”. Realmente dedicou parte de sua vida a fazer os tradicionais doces da cidade de Goiás, no tacho de cobre, como o de figo verde, o de laranja-da-terra e as passas de caju, feitas com o nativo cajuzinho do cerrado. Foi sobre esse tema que a filha da escritora, Vicência Brêtas Tahan, falou no workshop À Mesa com Cora Coralina, parte do evento Cozinhando com Palavras, que ocorreu na 21ª Bienal Internacional do livro de São Paulo. Vicência se inspirou no livro Cora Coralina – Doceira e Poeta, um apanhado da obra culinária da poetisa, resgatada pela família.

Enquanto Vicência lembrava os dotes culinários de sua mãe, a chef e escritora Heloísa Bacellar (Lá na Venda), outra admiradora de Cora Coralina, preparou para um bolo de fubá de aniversário – lembrando que Cora exaltava o milho de sua terra em versos como Poema do Milho. Naquele dia, 20 de agosto, se estivesse viva, ela faria 121 anos.

Foto: Guilherme Lara Campos/Fotoarena

Vicência Brêtas Tahan: depois de falar sobre a mãe no dia em que Cora Coralina completaria 102 anos, ela saboreia o bolo de aniversário, feito por Helo Bacellar

Os doces poemas comestíveis de Cora Coralina

Nos 45 anos em que Cora Coralina morou em São Paulo, antes de regressar definitivamente para Goiás Velho, aos 65 anos, sua saudade se expressava na lembrança de certo doce fabricado na época da comemoração religiosa de Pentecostes: as verônicas, miniesculturas em polvilho e açúcar moldadas em forma de pomba, em homenagem ao Espírito Santo. “Era uma goianiense que levou sua cidade para todo lugar que ela foi”, diz Vicência.

Cora Coralina começou a escrever com 14 anos, mas só teve seu primeiro livro publicado aos 75 anos. “Minha mãe é uma grande lição de vida, de uma mulher de muita fé, que não desanimou no caminho”, diz Vicência. Sua atividade diária e seu sustento eram os doces que fazia. Como da sua mão só brotava arte, moldava verdadeiras obras-primas, doces poemas comestíveis. Fazia doces glacerizados – e não cristalizados, como gostavam de exaltar – passados numa calda bem grossa e colocados para secar ao sol num tipo de jirau. “... A calda grossa formava o glacê, liso, brilhante...”, escreve no livro seu neto Flávio de Almeida Salles Júnior.

Nítida é a influência da doçaria portuguesa em Goiás Velho. Principalmente nos alfenins e nas verônicas, representantes maiores da arte das doceiras locais. Os alfenins, originalmente doce árabe, foram trazidos pelos portugueses. Confeitos de açúcar e polvilho moldados à mão e sem molde, quando estão ainda quentes, os alfenins são feitos um a um e assumem a forma de bichos e flores, formando-se pequenas esculturas em açúcar.

Aninha embalava seus doces em caixinhas de papelão. Eram três camadas de doces, forradas e intercaladas por papel celofane cortado do tamanho exato da caixinha. “Uma de cada variedade que tinha no momento”, conta Vicência. Mamão vermelho, cidra, abóbora. Em seguida, a caixa era embrulhada em papel bonito. “E finalmente amarrada com um barbante ornado com um delicado fio metálico enrolado em espiral”, conta o neto Flávio. Não adiantava o freguês querer só de um tipo: era convencido a levar os três doces com o argumento de que não se arrependeria, porque todos eram excelentes.

Para mim esse seu zelo culinário se reflete nos poemas cuidadosamente arranjados em camadas de profundidade, sensibilidade e amor, embrulhados com laço de fita. Dá vontade de degustar cada pedacinho, bem devagar e, depois, ler tudo de novo, identificando sempre uma nova nota de sabor em suas doces palavras. Que jóias raras deviam ser seus doces!

Foto: Divulgação

O doce de mamão vermelho da receita abaixo, de Cora Coralina



SERVIÇO
Cora Coralina – Doceira e Poeta, pesquisa e seleção de textos de Vicência Brêtas Tahan, Global Editora.

Doce de Mamão Vermelho, por Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, a Cora Coralina, extraída do livro Cora Coralina – doceira e poeta
Tempo de cozimento: de 3 a 4 horas

Ingredientes
1 mamão vermelho e firme de 2 quilos
1 colher (sopa) de bicarbonato ou cal virgem
1 quilo de açúcar cristal

Modo de fazer
1. Descasque o mamão, retire as sementes e corte em pedaços. Coloque os pedaços em água com bicarbonato ou cal virgem de construção.
2. Depois de uma hora lave os pedaços em água pura.
3. Prepare, à parte, calda em ponto de espelho, quantidade suficiente para cobrir os pedaços.
4. Quando ela estiver no ponto, coloque os pedaços de mamão (faça antes furos com o garfo para a calda penetrar) e em fogo lento espere até que fiquem macios. Deixe dormir na calda, apurando no dia seguinte.
5. Com o auxílio de uma colher de pau ou escumadeira, coloque para escorrer em peneira de taquara. Enquanto isso apure bem a calda restante, até que comece a açucarar.
6. Depois de escorridos, passe os pedaços de mamão na calda apurada para que fiquem glacerizados. Acabe de secá-los ao sol.

Nota: o bicarbonato ou a cal servem para deixar os frutos durinhos por fora e macios por dentro.
 

Sobre o articulista

Guta Chaves - gutachaves@gutachaves.com.br - Guta Chaves é jornalista e escritora na área de gastronomia. É co-autora dos livros Larousse da Cozinha Brasileira e Gastronomia no Brasil e no Mundo, da editora SENAC

» Mais textos deste articulista

    Notícias Relacionadas


    4 Comentários |

    Comente

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado

    Ver de novo